Entre o público e o privado

"Em que espelho ficou perdida a minha face?"
(Cecília Meireles)

Por séculos a universalidade da arte deixou de fora as experiências e criações das mulheres. Afinal, onde estão as grandes artistas mulheres da nossa história? É preciso contestar as suposições por trás do talento artístico e as regras do jogo patriarcal também no mundo das artes. Portanto, colocar as mulheres e sua produção artística em foco por si só já é um ato político; criar registros, uma atitude de resistência.

O evento reúne obras de diversas artistas contemporâneas criando um elo direto e enfatizado no conceito mulher-artista e concretizado nas inúmeras formas de manifestação da criação individual. Mulheres artistas revelam, desvelam, apropriam na contemporaneidade de suas criações o devir da identidade mulher. Na arte a possibilidade revelada da reflexão é presença constante e ampla no seu poder de ultrapassar as muitas barreiras que dificultam o entendimento.

Mais do que tudo, nos propomos a pensar o universo das mulheres, suas múltiplas essencialidades e a invisibilidade secular a que foi relegada. Assim, por que não construir um evento que favoreça este mergulho reflexional? Somos um grupo de mulheres artistas produzindo arte hoje: isto tem um significado. Neste contexto como negar nossa história. Ao construirmos a obra, construímos, também, uma identidade da obra. A idéia é, exatamente, a de assumir este aspecto construtivo da identidade da obra, contextualizado pelo universo do qual fazemos parte, atribuindo-lhe significado e valor.

Assim, reveladas no que secularmente fomos, no que em parte ainda somos, no que estamos querendo ser e, portanto, cuidadosas para não cair na armadilha do modelo cultural imposto, a parte silenciosa da história mostra a face e constrói uma fala própria.

Helena Wassersten

Lúcia Avancini

Marilou Winograd