A identidade por um fio

Logo no início do catálogo da mostra Enciclopedia Persona, a artista americana Kim Abeles faz uma advertência aos leitores: o que eles vêem não é uma obra feita apenas por uma mulher mas algo que ao sair de suas mãos agrega, ao mesmo tempo, o masculino e o feminino. Não porque a artista abdique de sua condição de mulher ou, ao contrário, ela não exista, mas porque é o espaço interior que orienta sua linguagem visual afinada com o espírito poético em busca de realidades objetivas e subjetivas. Foi assim que mobilizada pelo crescente movimento feminista, Abeles produziu em 1979 uma série de auto-retratos longa meditação introspectiva através dos quais tentou expressar a tragédia de um ser bipartido e que a levou a se colocar tanto na primeira como na terceira pessoa. Em “Nossa posição, sempre recíproca”, por exemplo, a artista afivela a câmara a distintas partes do corpo (sobre o rosto, em torno da cintura e do tornozelo) para exprimir a natureza voyeurística da imagem e para referir-se as relações tema/objeto com o espectador. Esses auto-retratos que ao mesmo tempo fixam posições culturalmente arroladas como masculinas e demarca a posição da artista como mulher é o anúncio claro da ambivalência, sentido central e recorrente em diversas obras da artista (1).

Por aproximar de maneira proposital e simbólica, instâncias individuais que se sobrepõe ou se apartam no tempo, o trabalho de Kim Abeles permite o confronto com uma situação paradoxal, de quem constata mais uma vez como a identidade é uma matéria delicada, imprecisa, sempre a ponto de se desintegrar. Fernando Pessoa diria: as coisas são o sentindo oculto das coisas, na sua condição entre o orgânico e o inorgânico, entre o material e o imaterial, entre o visível e o invisível. Engana-se pois o espectador que se aproxima desta exposição de 35 artistas mulheres, buscando unicamente o que nela possa ser relacionado com a condição feminina, direta ou indiretamente. A identidade, enquanto dimensão existencial, tem uma posição incerta. Infelizmente, ainda hoje, muitos se prendem a leituras históricas, como se as obras fossem um resultado das lutas e transformações sociais, permitindo que se perca o que elas guardam de mais essencial: a trama problemática de sua constituição, elas próprias sinônimo de reflexão e embate dentro da ordem simbólica. Desta forma, elas deixariam de ser vistas como algo que se define pela superfície para adquirir tons profundos, perspectivas antes invisíveis. Daí o equivoco, como afirma o crítico carioca Ronaldo Brito em outro contexto, em analisá-las por comparação com outros processos sociais: “a questão é avaliá-las no registro correto, na historicidade imanente, em vez de generalizadas ao léu e perdidas de vista ao buscar sua ampla, geral e irrestrita representatividade” (2).Uma realidade impalpável talvez, mas estrutural.

São justamente essas questões que enunciam claramente um cabralino “sentimento de sedimento” que nos interessa aqui destacar. Houve um momento, como se sabe, em que sob a supremacia masculina, a mulher desempenhava o papel de mera coadjuvante da história. Coube aos homens então “escrever a história no masculino” (3), a despeito de identificarmos, na primeira metade do século XX, tênues referências ao universo feminino a impressionista francesa Mary Cassat (1844-1926), a escritora inglesa Virgínia Woolf (1882-1941), a artista mexicana Frida Kahlo (1907-1954), a pintora brasileira Tarsila do Amaral (1890-1977), esta última incorporando, às suas obras, as contradições sociais decorrentes da construção de espaço moderno, articulando a partir daí o cubismo sob o ponto de vista de nossa herança cultural.

Convém lembrar que ainda sem segurança de seu lugar, novas conquistas sociais sucederam-se, principalmente na virada do século XIX para o XX, entre as quais o livre acesso à educação e o direito ao voto, conquistado pelas mulheres no Brasil em 1932, em plena era Vargas.

Em que pese o tom conservador presente nos diversos meios de comunicação, a desmoralização promovida pelos grupos de poder e o próprio conservadorismo feminino, nas décadas seguintes a participação feminina se tornará mais ampla e profunda, especialmente a partir do movimento francês de maio de  1968 que põe abaixo inúmeras barreiras entre os sexos. (4)

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