Em 9 de março de 2004, na semana do dia internacional das mulheres, artistas brasileiras desconsideram qualquer homenagem formal e se unem para ressaltar sua atitude de vida e de trabalho.

Deixemos de lado as dificuldades encontradas pelas artistas plásticas para prestigiar a obra em si, pois sem o trabalho e sem a produção a sociedade não existiria. Fato este que atinge seu reconhecimento de forma lenta, porém constante.

Zona Oculta une obras de 35 artistas atuantes em âmbito nacional e internacional representando assim o perfil de várias gerações e tendências. A diversidade da linguagem artística é testemunha da pluralidade do pensamento que as conduz. A exposição transpõe um vasto universo entre os valores públicos e privados pelo fato de que as artistas fazem uso de sua própria história ao construírem suas obras que passam a ser vivenciadas por um público também heterogêneo. Por este motivo a exposição ocupa um local expositivo não convencional que mantém um elo cultural o Centro Cultural CEDIM - Conselho Estadual dos Direitos das Mulheres, instituição que por excelência se ocupa da mulher, seus interesses e seus conflitos.

A cultura brasileira é exemplo de diversificação e este é também o perfil de Zona Oculta, ampla na materialidade, formalidade, estética e concepção ressaltados nas instalações, objetos, performances e vídeos apresentados. Este panorama fecundo é a união de idéias contraditórias que se complementam e se aproximam justamente pelo impulso interno de cada protagonista criadora. A unidade das obras se tem pela atuação e postura das artistas, pois todas as participantes do projeto se concentram em suas obras autorais sem transbordar vestígios artificiais do universo feminino.

Zona Oculta torna visível e público a produção artística proveniente de idéias, mãos e especificamente da identidade da mulher artista brasileira, a qual tem se imposto na história da arte nacional a partir de grandes movimentos como a semana de Arte de 22 a exemplo de Anita Malfatti. A artista ressaltou não somente sua postura, mas também elementos típicos da cultura nacional. O nosso cotidiano dominado pela globalização passa a ser enriquecido por vertentes produtivas e inovadoras que permitem finalmente, mesmo na América do Sul, que as artistas atuem distante de padrões pré-estabelecidos e patriarcais.

Zona Oculta há de ser uma celebração do caminho já conquistado visualizando simultaneamente as novas metas a atingir. Todo processo artístico e de atuação há de ser alimentado pelo reconhecimento!

Tereza de Arruda*
Berlim, janeiro de 2004

*Crítica e historiadora da arte formada pela Universidade Livre de Berlim. Curadora independente, colabora regularmente para publicações como Revista Bravo (São Paulo), Revista Aplauso (Porto Alegre), Revista Chasqui (Berlim), Revista Tópicos (Bonn), Jornal Der Tagesspiegel (Berlim) entre outros.